sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

solidão

deitei na cama, abri a garrafa, dobrei o travesseiro nas costas para ter um bom apoio, respirei fundo e sentei na escuridão olhando a janela. era a primeira vez que eu estava sozinho em cinco dias.
eu era um homem que se fortalecia na solidão; ela era para mim a comida e a água dos outros homens.
cada dia sem solidão me enfraquecia. não que eu me orgulhasse dela, mas dela eu dependia.
a escuridão do quarto era como um dia ensolarado para mim. tomei um gole de vinho.


factótum, p. 32-33.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

o que é uma carta?

Haverá um dia em que minha neta Luiza – que completou um ano no dia 11 passado – sentará a meu lado e me perguntará, como quem consulta um velho alfarrábio:
- Vô, o que é uma carta?
Eu, quem sabe meio esquecido ou confuso, talvez fique pensando a que carta ela estará se referindo. Carta de baralho? Carta náutica? Carta celeste?
- Ah, sim, carta! exclamarei afinal.
E terei uma enorme dificuldade em explicar do que se trata.
Uma carta exigia certa cerimônia, além de data, texto e assinatura. Implicava um tratamento, por exemplo. Uma certa linguagem que, dependendo do destinatário, não poderia ser banal nem usar gírias.
Também não se escrevia carta a qualquer momento. Era preciso criar o momento propício para uma carta. Eu – e direi isto à Luiza – gostava de escrever cartas à noite, depois que as tarefas do dia haviam rendido sua inutilidade, numa escrivaninha junto à janela e fumando alguns cigarros. Parecia romântico e inspirador. Outros preferiam um cálice de conhaque.
O papel devia ser limpo, alvo, imaculado. Qualquer amassado ou rasura e a carta iria pro lixo. Recomeçava-se. Aliás, eram feitas várias versões.
- Isto se chamava “passar a limpo”, Luiza. A gente escrevia e, depois, copiava tudo de novo, com letra melhor, corrigindo os tropeços gramaticais, caprichando na caligrafia.
- Caligrafia, vô?
- Bom, isso eu explico amanhã. Voltemos à carta.
Dependendo de quem fosse o destinatário, da maior ou menor habilidade do remetente, do estado da caneta – aliás, chamadas “canetas tinteiro”; um dia eu explico –, uma carta poderia exigir meia dúzia de versões. A letra, é claro, precisava ser legível, o que seu avô jamais conseguiu, apesar dos esforços que fez.
Era preciso falar do tempo, contar as últimas...
- Que últimas?
- As últimas notícias, Luiza. Não havia jornal das oito. Aliás, não havia televisão.
Aqui Luiza, abismada, abrirá uns olhos enormes, talvez se indagando de onde teria saído aquele avô tão remoto e pré-histórico.
Embaraçado, eu continuaria:
- Bom, depois a gente escrevia a respeito do assunto principal da carta. Começava assim: “o que me leva a escrever...” Quando estudante, eu escrevia a meu pai pedindo um aumento de mesada. Ou escrevia a minha mãe anunciando o dia em que chegaria de viagem, pedindo que me recebesse com uma tainha ao forno. Outros escreviam para discutir problemas familiares, profissionais, contar das últimas namoradas, de um filme lançado aqui em Curitiba e que só chegaria a Blumenau no ano seguinte.
Depois, era só colocar num envelope, selar e levar ao correio.
- Levar ao correio? ela perguntaria. Não é...
- Não. Não é como o e-mail, direi.
- Ah, sei. E por que não escrevia naquela máquina ali?
Luiza apontaria para uma máquina de escrever portável que conservo numa prateleira e na qual datilografei meus primeiros livros.
- Era considerado falta de educação. Carta devia ser manuscrita. Só muito depois é que se começou a aceitar carta datilografada, mas aí eu não era mais adolescente.
E Luiza me olhará com olhos deslumbrados, como se estivesse ouvindo uma história que fosse produto da mais delirante fantasia.
Enfim, precisarei explicar à Luiza que o e-mail – que é tão prático, tão rápido, tão bom – acabou com a mágica das cartas. E ela, menina sensível e imaginativa, ficará maravilhada justamente por conta desta magia perdida. Cartas guardadas, segredos manuscritos, as últimas notícias, confissões íntimas, inquietações da alma. Tudo isto deixará Luiza com a imaginação acesa. E ela entenderá que carta não é um e-mail mais longo. É outra coisa. Assim como um romance não é um conto comprido. É outra coisa. Assim como um amor não é uma atração duradoura. É outra coisa.
E um dia Luiza pegará uma caneta (tinteiro, ainda restará alguma), se sentará numa sala quieta e, sob uma lâmpada pálida, talvez preocupada, talvez com saudades, colocará uma data sobre um papel imaculado e escreverá:
“Querido vovô,”
E descobrirá o que é uma carta.

Luiza me escreve uma carta
Roberto Gomes


Lindo, roubado do blog do Henry Milléo, fotógrafo da Gazeta.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Viagem no tempo





Este Brasil próspero e ufanista que estamos vivendo é fruto de uma virada no cenário econômico internacional: Basicamente a China começou a demandar commodities, o core da economia brasileira, elevando seu preço; na contra-partida, entupiu o mercado de bens tecnológicos, a maior demanda de importações brasileiras, barateando o valor destes à patamares inimagináveis na década de 80 e 90.
Cenários econômicos internacionais extremamente favoráveis para o Brasil não são novidades, experimentamos diversos "boom´s" de crescimento econômico ao longo da nossa história! O mais recente deles, aconteceu no fim da década de 60 e o começo da década de 70! O Brasil aproveitou uma alta de liquidez no mercado internacional para financiar um modelo de crescimento econômico pautado no Estado como principal agente econômico.
Nesta época surgiram os monstros estatais e a estrutura corrupta de favorecimentos políticos a empresas que suportavam um regime mono-ideológico. Surgiram grandes obras públicas, e o crescimento de empreiteiras cujo os proprietários eram do circulo de amizade do governo militar, além de uma intensa propaganda nacionalista, exaltando os feitos do Brasil.
Nesta época o Brasil construiu a maior hidroelétrica do planeta, 2 usinas nucleares, a rodovia transamazônica, foi tri-campeão do mundo e vendia a sensação que finalmente o Brasil estava vingando seu eterno potencial.
O que aconteceu é que, durante o "milagre econômico", o Brasil não dinamizou sua economia, não criou um mercado interno de consumo, o modelo estatal de baixa competitividade e remuneração garantida criou monstros corporativos de corrupção e ineficiência, as industrias nacionais com altas regalias se mostraram pouquíssimo competitivas no mercado internacional. Enquanto o mundo inteiro falava de globalização, exportações e desenvolvimento tecnológico, o Brasil estava ensimesmado em um projeto de desenvolvimento atrasado baseado em conceitos da década de 30!
Quando veio a crise do petróleo, a escassez de crédito e a consequente alta de juros internacionais, o Brasil estava com uma economia ultrapassada, uma divida gigantesca, e uma ré no seu desenvolvimento que durou mais de 1 década.
O que nós estamos fazendo com este novo ciclo de prosperidade? Nós estamos fazendo grandes e ineficientes obras publicas: de 2006 para 2011, subiu de 5 para 11 as construtoras com lucros acima de 1 bilhão de reais, 60% destes ganhos oriundos de projetos estatais, a elaboração de projetos megalomaníacos: 1 copa do mundo e 1 olimpíada em 6 anos. Reduzindo a dinâmica da economia brasileira, favorecimento de empresários com circulação próxima do planalto, uma dominação ideológica, estrutura politica extremamente corrupta.
O Brasil esta vivendo um bom momento? Sim! Mas ainda estamos atrás do Uruguai, do Chile e da Polônia na divisão per-capita do PIB (4 posições a frente do GABÃO!), ainda estamos em franca decadência nos rankings de dinamismo econômico, inovação tecnológica e de competitividade econômica! Ainda temos um dos piores sistemas de ensino, uma das piores distribuições de renda, os maiores juros do mundo, inflação na casa dos 7%, a estrutra politica e o custo de vida mais caros do mundo.
Resumo da ópera, ainda somos pobres, pouco eficientes, ignorantes e pagamos muito caro por isto! O que nós estamos comemorando afinal?
O que todas estas pessoas que estão maravilhadas com o Eike Batista, com o Brasil na 6º posição das maiores economias e todas estas besteiras papagaiadas a torto e direito vão pensar quando houver uma virada no cenário econômico global e nós tivermos que enfrentar, de novo, a década de 80!??!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

um dia, um gato


once upon a time there was more than wasn't.
to watch the bustle of life is always a musing.
and it is fun when one likes people.
yet, one has to look at things from a proper height.
not too high though like astronauts because of their weight lessness.
they don't even have the time do notice what's really going on.
a humble height and a humble tower in a humble small town will do
and one see tragedies as well as trilogies.
now, i'll have a look what's the day like today at home.


trecho do filme az prijde kocour (ou um dia, um gato), 1963.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Joni Mitchell

Descobri ela dando uma conferida na lista dos 500 melhores albuns da Rolling Stones... O disco em questão era o "blue" com composições folks, muito americanas, sem muitos arranjos pra favorecer a belissima voz da Joni Mitchell ! Eu acho que a musica a seguir é a melhor dentre todas que compunham o LP