Mostrando postagens com marcador crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônicas. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O Carioca

      Devem ser lá umas duas da madrugada e as ruas de Ipanema continuam agitadas em mais uma sexta-feira como muitas outras. Estamos sentados numa mesa à calçada, no Cafézinho, um botequim "pé sujo", como é de praxe para o bom viver de um carioca. Um estudante de cinema, um músico e dois yuppies do mercado financeiro. As camisas abertas no peito e enroladas na manga são consequências do calor abafado que ainda faz. A única solução, óbvia, é continuar a pedir mais loiras geladas pro Maneco.
      Maneco não quer saber da gente não. Bando de muleque à toa, mas que no fim das contas pagam o seu salário. Falando em conta, na primeira oportunidade que tem ele fecha a nossa, somando no bloquinho de papel cinza com a caneta que guarda no bolsa da frente da camisa. Claro, não depois de ouvir muita reclamação, e de uma rodada por conta da casa. Maneco já com pressa pega o balde pra lavar a calçada onde estamos sentados. A água corre por debaixo dos nossos pés e me sinto um pouco apóstolo enquanto acabamos a última gelada.
      Os assuntos são os costumeiros, e nem um pouco importantes. Alguém defende veementemente que "Guerra do Fogo" é o melhor filme da história... quando ele chega. Sandálias de dedo, camiseta do Vascão e uma samba-canção estampada.

      "Porra, tu tá maluco mermão? Sai de casa de samba-canção agora é?" - Alguém já grita enquanto ele ainda atravessa a rua em direção ao buteco.

      De lá mesmo ele responde calmamente:

      "Mermão. Num fode. Eu tô na minha vizinhança."

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A Ultima Cronica

Como tirar algo tão emocionante do cotidiano? Com as palavras, o mestre:

A Ultima Cronica
Por Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.
A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

A Ladeira

Por Luiz Felipe Pondé
 Nós estávamos unidos no mundo; prazer e dor, ela e eu; Chamam isso de desejo

Lembro-me de seu rosto, de seu choro, de seus gritos. Era uma dessas mulatas que povoam o mundo de qualquer menino nordestino. Eu, menino da elite branca, sentado no banco de trás do carro de meu pai, com meus oito anos, assistia sua agonia.

Ela, de joelhos na ladeira, gritava de dor enquanto segurava, entre as pernas, a cabeça de uma criança que forçava entre sangue e urina, sua entrada no mundo.
Assim vi, pela primeira vez, o nascimento de uma criança. Sua agonia me chamou a atenção. São as mulheres condenadas a essa dor? Mais tarde entendi que era isso que me assustava na cena. O próprio sentido do mundo se dividir entre homens e mulheres era ainda uma idéia vaga.

De alguma forma essa cena me iniciou no que mais tarde ouvi chamar de condição feminina: correr o risco de gritar sozinha numa ladeira. Logo entendi que este era um mundo do qual eu estava protegido: jamais cairia numa ladeira por aquela razão.

Minha simpatia era inteira para aquela infeliz, a criança era mero detalhe. Mulheres carregavam bebês na barriga! Até então, não sabia ao certo a forma como os bebês vinham ao mundo. De certa forma, aquela cena marcou minha entrada do mundo de homens e mulheres.

Durante dias tive aquela imagem na memória. Havia uma beleza brutal naquela mulher corajosa e sozinha na ladeira. Todas as mulheres à minha volta eram ela.
Muito do que penso hoje é fruto de fatos assim. Daí minha tendência incontrolável em confiar mais nas sensações primitivas do que em idéias. Aquela sensação sempre me acompanha quando o tema é "condição feminina".

Dois outros fatos se somariam a este para compor, finalmente, minha entrada no mundo de homens e mulheres. Certa feita, uma confusão tomou conta dos fundos da minha casa. Na minha memória, foi logo após aquela mulher da ladeira. Talvez essa proximidade temporal seja apenas truques do inconsciente. Uma empregada estava de repente "doente". Desmaiara no banheiro dos fundos da casa. Uma correria invadiu o mundo das mulheres à minha volta.

Algumas horas depois, fui sorrateiramente ao quarto da empregada e a vi deitada encolhida na cama, chorando. Algo no banheiro dela o tornava território proibido. Não sei se vi ou se pensei que vi, mas lembro-me daquela coisa ensangüentada no chão. Ela perdera a criança. A mulher na ladeira e a minha empregada, de repente, eram uma só.
Definitivamente o mundo agora estava dividido em dois tipos de gente: os que carregam bebês na barriga e de repente gritam de dor, e os que assistem a esse sofrimento. Deus tinha decidido que eu não era do tipo que passaria por aquele sofrimento. Mas algo me dizia que eu devia ter algo a ver com aquilo.

Um dia, conheci uma colega nova de classe. Logo a achei maravilhosamente linda. Sua simples presença enchia a escola de encanto. Ela era uma daquelas que carregariam bebês na barriga. Temia por ela também. Com o passar do tempo, impulsos de pegar nela me enchiam a cabeça. Depois compreendi que esta era a etapa do processo através do qual eu entenderia meu papel naquela cena da ladeira. Este papel começava com aquela vontade esquisita de pegar naquela menina linda que sentava ao meu lado na classe.

Mas a grande felicidade ainda estava por vir. Aquela coisa linda falava comigo! Na escola, passávamos horas conversando. Escutava com um interesse indescritível as aventuras com suas bonecas. A vontade de pegar nela era cada vez maior. O fato de me contar aquelas histórias significava pra mim que um dia ela deixaria eu pegar nela.

Não sei mais como fiz a importante descoberta final. Não foi graças a essa bobagem chamada educação sexual. Devo ter juntado cenas de TV, conversas ouvidas sorrateiramente entre as amigas de minhas irmãs mais velhas, revistas, enfim, o mundo começava a me educar, assim como tem feito há milhares de anos com todo mundo.

Entendi que as mulheres passavam por aquela dor porque homens tinham vontade de pegar nelas. E elas gostavam disso, por isso ficavam contando histórias para eles. Ali estava o elo: homens e mulheres tinham vontade de pegar uns nos outros e isso era a causa dos gritos, sangue e crianças. O que eu sentira por aquela mulher na ladeira me levou a olhar para minha linda colega com cuidado. Estávamos unidos no mundo. Prazer e dor, ela e eu. Chamam isso de desejo. Logo seria meu aniversário. Ela me deu um livro de presente! Era final de abril, quase maio. O ano, 1968.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Artigos - Pondé

Luiz Felipe Pondé - "Mrs. Dalloway"

Morava eu num kibutz em Israel. No final do dia de trabalho físico extenuante, lia na porta do meu quarto, ensaiando meus primeiros cachimbos. Durante alguns meses devorei livros da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941). Entre eles, um que me marcou excepcionalmente foi "Mrs. Dalloway", publicado em 1925.
Revi o maravilhoso "As Horas" (2002), com Nicole Kidman. E sempre quando vejo esse filme me lembro de como ela foi essencial, ainda que de modo pontual, em minha visão de mundo. No fundo, sempre suspeitei de que cada dia é mais um dia sob o risco de ser devorado pelo sentimento último da melancolia.
Às vezes na vida se faz necessário rompimentos com o cotidiano para que possamos ver melhor o sentido do que fazemos, ou a total falta de sentido. A vida se degrada facilmente na rotina de tentar mantê-la funcionando, por isso a derrota, como no livro "Mito de Sísifo" (1942), de Albert Camus, pode ser a condição necessária para a consciência repousar em paz consigo mesma. Vencer sempre pode ser um inferno.
Na época, atravessando minha primeira (de várias) crises com minha formação médica então em curso, busquei fugir para alguma fronteira do mundo. Trabalhei no deserto do Neguev algumas vezes e posso dizer que o pôr do sol no deserto vazio é uma experiência de dar inveja. A possibilidade de caminhar pelo deserto, como me disse certa feita o escritor israelense Amós Oz, refaz a alma porque vemos nosso rosto refletido na poeira. O deserto nos ensina a humildade, e a humildade é sempre imbatível. Humildade nada tem a ver com humilhação, mas, ao contrário, humildade fala da consciência de que somos efêmeros como o vento. E só como efêmeros que podemos perceber a dádiva que é respirar. Há um modo misterioso em como o deserto chama seu nome quando você está disposto a ouvi-lo.
Na época, já sabia que Virginia Woolf havia se suicidado e, por isso mesmo, quis conhecer sua obra. Nunca fui um deprimido clínico, mas sempre me surpreendi pelo fato de não sê-lo. Muitas vezes pareceu-me que, se fosse viver pelo que a razão me diz, já teria sucumbido à melancolia profunda. O que me encantou em Mrs.
Dalloway foi seu esforço em ser normal e feliz e acreditar em si mesma e na sua fidelidade à rotina. No dia em que se passa a história, ela organiza uma festa em sua casa. Manter a vida aí se equipara ao esforço descomunal de erguer uma festa quando, no fundo, ela se sente vazia e sem razões para festejar. Entre uma alma triste e uma rotina vazia, ela opta pela segunda como falta de escolha porque não pode confiar na tristeza.
Penso no número enorme de pessoas que se levantam pela manhã assim como quem carrega um corpo que não é seu. Mrs. Dalloway é o fim de quem ingenuamente acredita que as coisas sempre darão certo, bastando festejar a rotina comum. Não, a rotina é indiferente à nossa fidelidade, podendo nos destruir mesmo quando a servimos como a um senhor todo poderoso. O pesadelo de Mrs. Dalloway é se ver como estrangeira em sua própria alma.
Aprendemos com ela que a vida não é necessariamente bela e que tentar negar isso é uma forma de permanecer escravo de sua possível monstruosidade.
No fundo de nossa alma habitam monstros que a muito custo se mantêm em silêncio. Esses monstros, quando o mundo silencia, surgem na superfície mostrando o ridículo de nossa batalha diária.
Quantas vezes mulheres apenas suportam o choro de seus filhos, sofrendo no fundo da alma o horror que é ser obrigada a amá-los quando não sentem por eles nada parecido com amor materno, mas apenas o incômodo causado por aqueles pequenos intrusos em suas vidas.
Quantos homens sufocam diante da certeza de que já vivem uma vida sem amor, sem afeto e sem desejo, mas que isso é tudo que suportam ao lado de suas esposas. Quantos filhos sofrem por se sentir indiferentes para com o destino dos pais idosos, tentando convencer a si mesmos de que o amor pelos pais seria o certo, mas que nada conseguem além de desejar vê-los mortos e assim se sentirem livres finalmente.
Entre as funções da civilização, uma é a tentativa de calar esses monstros criando ritos, rituais, festas para celebrar a frágil vitória contra essas criaturas deformadas, atormentadas pelo completo desinteresse pela vida. A verdade é que não há como civilizá-las, a não ser ensiná-las que elas não têm lugar no mundo dos vivos e que, por isso, devem sucumbir à rotina da infelicidade como norma da vida.