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domingo, 29 de abril de 2012
às moscas
Construímos sonhos de autorrealização profissional, afetiva e material. A expectativa com nossa própria grandeza ocupa grande parte de nossos devaneios.
O sentimento da fragilidade do mundo sempre me perseguiu desde a infância. Se os psicanalistas estiverem certos, e tudo que é primitivo é indelével, esse sentimento constitui minha substância mais íntima. Que inveja eu tenho das moscas!
Livres, voando pelo mundo, sem saber de si mesmas. (Pondé)
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terça-feira, 13 de dezembro de 2011
...o desejo nos aproxima do nada porque desvaloriza tudo que temos. Por isso, quando movidos por ele, sem o cuidado de quem se sabe parte de uma espécie louca, flertamos com o valor zero de tudo. - Freud via Pondé.
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sexta-feira, 29 de julho de 2011
Tentação totalitária
por Luiz Felipe Pondé para Folha
Você se considera uma pessoa totalitária? Claro que não, imagino. Você deve ser uma pessoa legal, somos todos.
Às vezes, me emociono e choro diante de minhas boas intenções e me pergunto: como pode existir o mal no mundo? Fossem todos iguais a mim, o mundo seria tão bom... (risadas).
Totalitários são aqueles skinheads que batem em negros, nordestinos e gays.
Mas a verdade é que ser totalitário é mais complexo do que ser uma caricatura ridícula de nazista na periferia de São Paulo.
A essência do totalitarismo não é apenas governos fortes no estilo do fascismo e comunismo clássicos do século 20.
Chama minha atenção um dado essencial do totalitarismo, quase sempre esquecido, e que também era presente nos totalitarismos do século 20.
Você, amante profundo do bem, sabe qual é? Calma, chegaremos lá.
Você se lembra de um filme chamado "Um Homem Bom", com Viggo Mortensen, no qual ele é um cara legal, um professor universitário não simpatizante do nazismo (o filme se passa na Alemanha nazista), e que acaba sendo "usado" pelo partido?
Pois bem. Neste filme, há uma cena maravilhosa, entre outras. Uma cena num parque lindo, verde, cheio de árvores (a propósito, os nazistas eram sabidamente amantes da natureza e dos animais), famílias brincando, casais se amando, cachorros correndo, até parece o Ibirapuera de domingo.
Aliás, este é um dos melhores filmes sobre como o nazismo se implantou em sua casa, às vezes, sem você perceber e, às vezes, até achando legal porque graças a ele (o partido) você arrumaria um melhor emprego e mais estabilidade na vida.
Fosse hoje em dia, quem sabe, um desses consultores por aí diria, "para ter uma melhor qualidade de vida".
E aí, a jovem esposa do professor legal (ele acabara de trocar sua esposa de 40 anos por uma de 25 -é, eu sei, banal como a morte) o puxa pelo braço querendo levá-lo para o comício do partido que ia rolar naquele domingão no parque onde as famílias iam em busca de uma melhor qualidade de vida.
Mas ele não tem nenhuma vontade de ir para o comício porque sente um certo "mal-estar" com aquilo tudo. Mas ela, bonita, gostosa, loira, jovem e apaixonada (não se iluda, um par de pernas e uma boca vermelha são mais fortes do que qualquer "visão política de mundo"), diz: "Meu amor, tanta gente junta querendo o bem não pode ser tão mal assim".
É, meu caro amante do bem, esta frase é uma das melhores definições do processo, às vezes invisível, que leva uma pessoa a ser totalitária sem saber: "Quero apenas o bem de todos".
Aí está a característica do totalitarismo que sempre nos escapa, porque ficamos presos nas caricaturas dos skinheads: aquelas pessoas, sim, se emocionavam e choravam diante de tanta boa vontade, diante de tanta emoção coletiva e determinação para o bem.
Esquecemos que naqueles comícios, as pessoas estavam ali "para o bem".
Se você tem absoluta certeza que "você é do bem", cuidado, um dia você pode chorar num comício achando que aquilo tudo é lindo e em nome de um futuro melhor.
E se essa certeza vier acompanhada de alguma "verdade cientifica" (como foi comum nos totalitarismos históricos) associada a educadores que querem "fazer seres humanos melhores" (como foi comum nos totalitarismos históricos) e, finalmente, se tiver a ambição política, aí, então, já era.
Toda vez que alguém quiser fazer um ser humano melhor, associando ciência (o ideal da verdade), educação (o ideal de homem) e política (o ideal de mundo), estamos diante da essência do totalitarismo.
O que move uma personalidade totalitária é a certeza de que ela está fazendo o "bem para todos", não é a vontade de destruir grupos diferentes do dela.
Primeiro vem a certeza de si mesmo como agente do "bem total", depois você vira autoritário em nome desse bem total.
O melhor antídoto para a tentação do totalitarismo não é a certeza de um "outro bem", mas a dúvida acerca do que é o bem, aquilo que desde Aristóteles chamamos de prudência, a maior de todas as virtudes políticas.
Não confio em ninguém que queira criar um homem melhor.
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segunda-feira, 27 de junho de 2011
Um nada que ama.
"Somos um nada que ama.
A filosofia da existência é uma educação pela angústia. Uma vez que paramos de mentir sobre nosso vazio e encontramos nossa "verdade", ainda que dolorosa, nos abrimos para uma existência autêntica." - Luiz Felipe Pondé, sobre Kierkegaard. Artigo original aqui.
A filosofia da existência é uma educação pela angústia. Uma vez que paramos de mentir sobre nosso vazio e encontramos nossa "verdade", ainda que dolorosa, nos abrimos para uma existência autêntica." - Luiz Felipe Pondé, sobre Kierkegaard. Artigo original aqui.
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segunda-feira, 16 de agosto de 2010
A Ladeira
Por Luiz Felipe Pondé
Nós estávamos unidos no mundo; prazer e dor, ela e eu; Chamam isso de desejo
Lembro-me de seu rosto, de seu choro, de seus gritos. Era uma dessas mulatas que povoam o mundo de qualquer menino nordestino. Eu, menino da elite branca, sentado no banco de trás do carro de meu pai, com meus oito anos, assistia sua agonia.
Ela, de joelhos na ladeira, gritava de dor enquanto segurava, entre as pernas, a cabeça de uma criança que forçava entre sangue e urina, sua entrada no mundo.
Assim vi, pela primeira vez, o nascimento de uma criança. Sua agonia me chamou a atenção. São as mulheres condenadas a essa dor? Mais tarde entendi que era isso que me assustava na cena. O próprio sentido do mundo se dividir entre homens e mulheres era ainda uma idéia vaga.
De alguma forma essa cena me iniciou no que mais tarde ouvi chamar de condição feminina: correr o risco de gritar sozinha numa ladeira. Logo entendi que este era um mundo do qual eu estava protegido: jamais cairia numa ladeira por aquela razão.
Minha simpatia era inteira para aquela infeliz, a criança era mero detalhe. Mulheres carregavam bebês na barriga! Até então, não sabia ao certo a forma como os bebês vinham ao mundo. De certa forma, aquela cena marcou minha entrada do mundo de homens e mulheres.
Durante dias tive aquela imagem na memória. Havia uma beleza brutal naquela mulher corajosa e sozinha na ladeira. Todas as mulheres à minha volta eram ela.
Muito do que penso hoje é fruto de fatos assim. Daí minha tendência incontrolável em confiar mais nas sensações primitivas do que em idéias. Aquela sensação sempre me acompanha quando o tema é "condição feminina".
Dois outros fatos se somariam a este para compor, finalmente, minha entrada no mundo de homens e mulheres. Certa feita, uma confusão tomou conta dos fundos da minha casa. Na minha memória, foi logo após aquela mulher da ladeira. Talvez essa proximidade temporal seja apenas truques do inconsciente. Uma empregada estava de repente "doente". Desmaiara no banheiro dos fundos da casa. Uma correria invadiu o mundo das mulheres à minha volta.
Algumas horas depois, fui sorrateiramente ao quarto da empregada e a vi deitada encolhida na cama, chorando. Algo no banheiro dela o tornava território proibido. Não sei se vi ou se pensei que vi, mas lembro-me daquela coisa ensangüentada no chão. Ela perdera a criança. A mulher na ladeira e a minha empregada, de repente, eram uma só.
Definitivamente o mundo agora estava dividido em dois tipos de gente: os que carregam bebês na barriga e de repente gritam de dor, e os que assistem a esse sofrimento. Deus tinha decidido que eu não era do tipo que passaria por aquele sofrimento. Mas algo me dizia que eu devia ter algo a ver com aquilo.
Um dia, conheci uma colega nova de classe. Logo a achei maravilhosamente linda. Sua simples presença enchia a escola de encanto. Ela era uma daquelas que carregariam bebês na barriga. Temia por ela também. Com o passar do tempo, impulsos de pegar nela me enchiam a cabeça. Depois compreendi que esta era a etapa do processo através do qual eu entenderia meu papel naquela cena da ladeira. Este papel começava com aquela vontade esquisita de pegar naquela menina linda que sentava ao meu lado na classe.
Mas a grande felicidade ainda estava por vir. Aquela coisa linda falava comigo! Na escola, passávamos horas conversando. Escutava com um interesse indescritível as aventuras com suas bonecas. A vontade de pegar nela era cada vez maior. O fato de me contar aquelas histórias significava pra mim que um dia ela deixaria eu pegar nela.
Não sei mais como fiz a importante descoberta final. Não foi graças a essa bobagem chamada educação sexual. Devo ter juntado cenas de TV, conversas ouvidas sorrateiramente entre as amigas de minhas irmãs mais velhas, revistas, enfim, o mundo começava a me educar, assim como tem feito há milhares de anos com todo mundo.
Entendi que as mulheres passavam por aquela dor porque homens tinham vontade de pegar nelas. E elas gostavam disso, por isso ficavam contando histórias para eles. Ali estava o elo: homens e mulheres tinham vontade de pegar uns nos outros e isso era a causa dos gritos, sangue e crianças. O que eu sentira por aquela mulher na ladeira me levou a olhar para minha linda colega com cuidado. Estávamos unidos no mundo. Prazer e dor, ela e eu. Chamam isso de desejo. Logo seria meu aniversário. Ela me deu um livro de presente! Era final de abril, quase maio. O ano, 1968.
Nós estávamos unidos no mundo; prazer e dor, ela e eu; Chamam isso de desejo
Lembro-me de seu rosto, de seu choro, de seus gritos. Era uma dessas mulatas que povoam o mundo de qualquer menino nordestino. Eu, menino da elite branca, sentado no banco de trás do carro de meu pai, com meus oito anos, assistia sua agonia.
Ela, de joelhos na ladeira, gritava de dor enquanto segurava, entre as pernas, a cabeça de uma criança que forçava entre sangue e urina, sua entrada no mundo.
Assim vi, pela primeira vez, o nascimento de uma criança. Sua agonia me chamou a atenção. São as mulheres condenadas a essa dor? Mais tarde entendi que era isso que me assustava na cena. O próprio sentido do mundo se dividir entre homens e mulheres era ainda uma idéia vaga.
De alguma forma essa cena me iniciou no que mais tarde ouvi chamar de condição feminina: correr o risco de gritar sozinha numa ladeira. Logo entendi que este era um mundo do qual eu estava protegido: jamais cairia numa ladeira por aquela razão.
Minha simpatia era inteira para aquela infeliz, a criança era mero detalhe. Mulheres carregavam bebês na barriga! Até então, não sabia ao certo a forma como os bebês vinham ao mundo. De certa forma, aquela cena marcou minha entrada do mundo de homens e mulheres.
Durante dias tive aquela imagem na memória. Havia uma beleza brutal naquela mulher corajosa e sozinha na ladeira. Todas as mulheres à minha volta eram ela.
Muito do que penso hoje é fruto de fatos assim. Daí minha tendência incontrolável em confiar mais nas sensações primitivas do que em idéias. Aquela sensação sempre me acompanha quando o tema é "condição feminina".
Dois outros fatos se somariam a este para compor, finalmente, minha entrada no mundo de homens e mulheres. Certa feita, uma confusão tomou conta dos fundos da minha casa. Na minha memória, foi logo após aquela mulher da ladeira. Talvez essa proximidade temporal seja apenas truques do inconsciente. Uma empregada estava de repente "doente". Desmaiara no banheiro dos fundos da casa. Uma correria invadiu o mundo das mulheres à minha volta.
Algumas horas depois, fui sorrateiramente ao quarto da empregada e a vi deitada encolhida na cama, chorando. Algo no banheiro dela o tornava território proibido. Não sei se vi ou se pensei que vi, mas lembro-me daquela coisa ensangüentada no chão. Ela perdera a criança. A mulher na ladeira e a minha empregada, de repente, eram uma só.
Definitivamente o mundo agora estava dividido em dois tipos de gente: os que carregam bebês na barriga e de repente gritam de dor, e os que assistem a esse sofrimento. Deus tinha decidido que eu não era do tipo que passaria por aquele sofrimento. Mas algo me dizia que eu devia ter algo a ver com aquilo.
Um dia, conheci uma colega nova de classe. Logo a achei maravilhosamente linda. Sua simples presença enchia a escola de encanto. Ela era uma daquelas que carregariam bebês na barriga. Temia por ela também. Com o passar do tempo, impulsos de pegar nela me enchiam a cabeça. Depois compreendi que esta era a etapa do processo através do qual eu entenderia meu papel naquela cena da ladeira. Este papel começava com aquela vontade esquisita de pegar naquela menina linda que sentava ao meu lado na classe.
Mas a grande felicidade ainda estava por vir. Aquela coisa linda falava comigo! Na escola, passávamos horas conversando. Escutava com um interesse indescritível as aventuras com suas bonecas. A vontade de pegar nela era cada vez maior. O fato de me contar aquelas histórias significava pra mim que um dia ela deixaria eu pegar nela.
Não sei mais como fiz a importante descoberta final. Não foi graças a essa bobagem chamada educação sexual. Devo ter juntado cenas de TV, conversas ouvidas sorrateiramente entre as amigas de minhas irmãs mais velhas, revistas, enfim, o mundo começava a me educar, assim como tem feito há milhares de anos com todo mundo.
Entendi que as mulheres passavam por aquela dor porque homens tinham vontade de pegar nelas. E elas gostavam disso, por isso ficavam contando histórias para eles. Ali estava o elo: homens e mulheres tinham vontade de pegar uns nos outros e isso era a causa dos gritos, sangue e crianças. O que eu sentira por aquela mulher na ladeira me levou a olhar para minha linda colega com cuidado. Estávamos unidos no mundo. Prazer e dor, ela e eu. Chamam isso de desejo. Logo seria meu aniversário. Ela me deu um livro de presente! Era final de abril, quase maio. O ano, 1968.
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segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Artigos - Pondé
Luiz Felipe Pondé - "Mrs. Dalloway"
Morava eu num kibutz em Israel. No final do dia de trabalho físico extenuante, lia na porta do meu quarto, ensaiando meus primeiros cachimbos. Durante alguns meses devorei livros da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941). Entre eles, um que me marcou excepcionalmente foi "Mrs. Dalloway", publicado em 1925.
Revi o maravilhoso "As Horas" (2002), com Nicole Kidman. E sempre quando vejo esse filme me lembro de como ela foi essencial, ainda que de modo pontual, em minha visão de mundo. No fundo, sempre suspeitei de que cada dia é mais um dia sob o risco de ser devorado pelo sentimento último da melancolia.
Às vezes na vida se faz necessário rompimentos com o cotidiano para que possamos ver melhor o sentido do que fazemos, ou a total falta de sentido. A vida se degrada facilmente na rotina de tentar mantê-la funcionando, por isso a derrota, como no livro "Mito de Sísifo" (1942), de Albert Camus, pode ser a condição necessária para a consciência repousar em paz consigo mesma. Vencer sempre pode ser um inferno.
Na época, atravessando minha primeira (de várias) crises com minha formação médica então em curso, busquei fugir para alguma fronteira do mundo. Trabalhei no deserto do Neguev algumas vezes e posso dizer que o pôr do sol no deserto vazio é uma experiência de dar inveja. A possibilidade de caminhar pelo deserto, como me disse certa feita o escritor israelense Amós Oz, refaz a alma porque vemos nosso rosto refletido na poeira. O deserto nos ensina a humildade, e a humildade é sempre imbatível. Humildade nada tem a ver com humilhação, mas, ao contrário, humildade fala da consciência de que somos efêmeros como o vento. E só como efêmeros que podemos perceber a dádiva que é respirar. Há um modo misterioso em como o deserto chama seu nome quando você está disposto a ouvi-lo.
Na época, já sabia que Virginia Woolf havia se suicidado e, por isso mesmo, quis conhecer sua obra. Nunca fui um deprimido clínico, mas sempre me surpreendi pelo fato de não sê-lo. Muitas vezes pareceu-me que, se fosse viver pelo que a razão me diz, já teria sucumbido à melancolia profunda. O que me encantou em Mrs.
Dalloway foi seu esforço em ser normal e feliz e acreditar em si mesma e na sua fidelidade à rotina. No dia em que se passa a história, ela organiza uma festa em sua casa. Manter a vida aí se equipara ao esforço descomunal de erguer uma festa quando, no fundo, ela se sente vazia e sem razões para festejar. Entre uma alma triste e uma rotina vazia, ela opta pela segunda como falta de escolha porque não pode confiar na tristeza.
Penso no número enorme de pessoas que se levantam pela manhã assim como quem carrega um corpo que não é seu. Mrs. Dalloway é o fim de quem ingenuamente acredita que as coisas sempre darão certo, bastando festejar a rotina comum. Não, a rotina é indiferente à nossa fidelidade, podendo nos destruir mesmo quando a servimos como a um senhor todo poderoso. O pesadelo de Mrs. Dalloway é se ver como estrangeira em sua própria alma.
Aprendemos com ela que a vida não é necessariamente bela e que tentar negar isso é uma forma de permanecer escravo de sua possível monstruosidade.
No fundo de nossa alma habitam monstros que a muito custo se mantêm em silêncio. Esses monstros, quando o mundo silencia, surgem na superfície mostrando o ridículo de nossa batalha diária.
Quantas vezes mulheres apenas suportam o choro de seus filhos, sofrendo no fundo da alma o horror que é ser obrigada a amá-los quando não sentem por eles nada parecido com amor materno, mas apenas o incômodo causado por aqueles pequenos intrusos em suas vidas.
Quantos homens sufocam diante da certeza de que já vivem uma vida sem amor, sem afeto e sem desejo, mas que isso é tudo que suportam ao lado de suas esposas. Quantos filhos sofrem por se sentir indiferentes para com o destino dos pais idosos, tentando convencer a si mesmos de que o amor pelos pais seria o certo, mas que nada conseguem além de desejar vê-los mortos e assim se sentirem livres finalmente.
Entre as funções da civilização, uma é a tentativa de calar esses monstros criando ritos, rituais, festas para celebrar a frágil vitória contra essas criaturas deformadas, atormentadas pelo completo desinteresse pela vida. A verdade é que não há como civilizá-las, a não ser ensiná-las que elas não têm lugar no mundo dos vivos e que, por isso, devem sucumbir à rotina da infelicidade como norma da vida.
Revi o maravilhoso "As Horas" (2002), com Nicole Kidman. E sempre quando vejo esse filme me lembro de como ela foi essencial, ainda que de modo pontual, em minha visão de mundo. No fundo, sempre suspeitei de que cada dia é mais um dia sob o risco de ser devorado pelo sentimento último da melancolia.
Às vezes na vida se faz necessário rompimentos com o cotidiano para que possamos ver melhor o sentido do que fazemos, ou a total falta de sentido. A vida se degrada facilmente na rotina de tentar mantê-la funcionando, por isso a derrota, como no livro "Mito de Sísifo" (1942), de Albert Camus, pode ser a condição necessária para a consciência repousar em paz consigo mesma. Vencer sempre pode ser um inferno.
Na época, atravessando minha primeira (de várias) crises com minha formação médica então em curso, busquei fugir para alguma fronteira do mundo. Trabalhei no deserto do Neguev algumas vezes e posso dizer que o pôr do sol no deserto vazio é uma experiência de dar inveja. A possibilidade de caminhar pelo deserto, como me disse certa feita o escritor israelense Amós Oz, refaz a alma porque vemos nosso rosto refletido na poeira. O deserto nos ensina a humildade, e a humildade é sempre imbatível. Humildade nada tem a ver com humilhação, mas, ao contrário, humildade fala da consciência de que somos efêmeros como o vento. E só como efêmeros que podemos perceber a dádiva que é respirar. Há um modo misterioso em como o deserto chama seu nome quando você está disposto a ouvi-lo.
Na época, já sabia que Virginia Woolf havia se suicidado e, por isso mesmo, quis conhecer sua obra. Nunca fui um deprimido clínico, mas sempre me surpreendi pelo fato de não sê-lo. Muitas vezes pareceu-me que, se fosse viver pelo que a razão me diz, já teria sucumbido à melancolia profunda. O que me encantou em Mrs.
Dalloway foi seu esforço em ser normal e feliz e acreditar em si mesma e na sua fidelidade à rotina. No dia em que se passa a história, ela organiza uma festa em sua casa. Manter a vida aí se equipara ao esforço descomunal de erguer uma festa quando, no fundo, ela se sente vazia e sem razões para festejar. Entre uma alma triste e uma rotina vazia, ela opta pela segunda como falta de escolha porque não pode confiar na tristeza.
Penso no número enorme de pessoas que se levantam pela manhã assim como quem carrega um corpo que não é seu. Mrs. Dalloway é o fim de quem ingenuamente acredita que as coisas sempre darão certo, bastando festejar a rotina comum. Não, a rotina é indiferente à nossa fidelidade, podendo nos destruir mesmo quando a servimos como a um senhor todo poderoso. O pesadelo de Mrs. Dalloway é se ver como estrangeira em sua própria alma.
Aprendemos com ela que a vida não é necessariamente bela e que tentar negar isso é uma forma de permanecer escravo de sua possível monstruosidade.
No fundo de nossa alma habitam monstros que a muito custo se mantêm em silêncio. Esses monstros, quando o mundo silencia, surgem na superfície mostrando o ridículo de nossa batalha diária.
Quantas vezes mulheres apenas suportam o choro de seus filhos, sofrendo no fundo da alma o horror que é ser obrigada a amá-los quando não sentem por eles nada parecido com amor materno, mas apenas o incômodo causado por aqueles pequenos intrusos em suas vidas.
Quantos homens sufocam diante da certeza de que já vivem uma vida sem amor, sem afeto e sem desejo, mas que isso é tudo que suportam ao lado de suas esposas. Quantos filhos sofrem por se sentir indiferentes para com o destino dos pais idosos, tentando convencer a si mesmos de que o amor pelos pais seria o certo, mas que nada conseguem além de desejar vê-los mortos e assim se sentirem livres finalmente.
Entre as funções da civilização, uma é a tentativa de calar esses monstros criando ritos, rituais, festas para celebrar a frágil vitória contra essas criaturas deformadas, atormentadas pelo completo desinteresse pela vida. A verdade é que não há como civilizá-las, a não ser ensiná-las que elas não têm lugar no mundo dos vivos e que, por isso, devem sucumbir à rotina da infelicidade como norma da vida.
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