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sexta-feira, 24 de junho de 2011

Sobre ciência e humildade


Retirado do Ceticismo Aberto:
Artigo de Daniel Loxton, publicado em Skepticblog
Tradução gentilmente autorizada
O pioneiro cético Isaac Asimov (um dos fundadores do CSICOP, hoje CSI) produziu uma biblioteca tão impressionante de livros (mais de 500!) que suas múltiplas autobiografias foram apenas pontuações. Eu tenho três autobiografias de Asimov na biblioteca Junior Skeptic. Às vezes, apenas por diversão, pego uma ao acaso, abro-a e leio as primeiras duas páginas que vejo à minha frente. Toda vez que faço isso, sem falta:
  1. leio algo engraçado;
  2. aprendo algo interessante e;
  3. sinto um post no blog surgindo pronto em minha cabeça.
Isto certamente aconteceu quando li a história de Asimov de sua experiência pessoal com a premonição psíquica ou a intervenção divina – na forma de um literal cutucão no ombro.[1]
Asimov Cover2 ceticismoComo contado em I. Asimov [um trocadilho entre a abreviatura de seu nome e “Eu. Asimov” em inglês], a história tomou lugar em uma tarde de 1990. Asimov estava dormindo em um leito privado de hospital (onde estava sendo tratado por sérios problemas cardíacos). Sua esposa Janet havia voltado para casa para alguns afazeres domésticos, deixando Asimov sozinho em seu quarto trancado.
Então algo estranho aconteceu. Asimov recordou: “Eu estava dormindo e então um dedo me cutucou. Eu acordei, é claro, e olhei assustado para ver o que havia me acordado e por que motivo”.
Ele examinou o quarto bem claro, iluminado pelo Sol. Estava vazio. A porta estava trancada e com correntes. O banheiro estava vazio. Não havia ninguém no armário. Era um verdadeiro mistério intrigante, envolvendo um quarto trancado, muito parecido com aqueles sobre o qual ele comumente escrevia. Sua mente se apressou sozinha a chegar a uma solução:
“Por mais racionalista que seja, não havia forma pela qual pudesse evitar pensar que alguma influência sobrenatural havia interferido para me dizer que algo havia acontecido com Janet (naturalmente, meu maior medo). Eu hesitei por um momento, tentando combater a ideia, e se envolvesse qualquer outra pessoa que não Janet, eu realmente teria deixado a ideia de lado. Mas eu liguei para ela”.
Felizmente, sua esposa atendeu prontamente. Ela estava bem.
“Aliviado, eu desliguei o telefone e parei para considerar o problema de quem ou o que havia me cutucado. Teria sido apenas um sonho acordado, uma alucinação? Talvez, mas pareceu absolutamente real”.
Ao final, ele descobriu o que havia acontecido: envolvido em seus próprios braços, Asimov havia conseguido cutucar a si mesmo no ombro. Mistério solucionado.
Mas imagine, ele refletiu, que as coisas tivessem se desenrolado de outra forma.
“Agora suponha que no exato momento em que me cutuquei, Janet, por alguma coincidência absolutamente sem significado, tivesse tropeçado e machucado seu joelho. E suponha que eu tivesse ligado e ela houvesse reclamado e dito, ‘Eu acabei de me machucar’.
Teria eu resistido ao pensamento de uma interferência sobrenatural? Eu espero que sim. No entanto, não posso estar seguro. É o mundo em que vivemos. Corromperia os mais fortes, e não imagino que eu seja o mais forte”.

É fácil ver como a experiência visceralmente convincente de Asimov poderia tê-lo persuadido, e Asimov foi honesto o suficiente para admiti-lo. Afinal, aconteceu durante uma doença ameaçadora, próxima do final de sua vida, em uma época em que ele estava obcecado com a morte. (Em uma nota relacionada porém mais leve, Asimov teve um sonho ao redor dessa época em que ele chegou, surpreso, no Céu. Depois de discutir com um anjo que o saudou a respeito de haver um engano em permitir a entrada de um velho ateu, Asimov ‘pensou por um momento e então se voltou ao anjo escrivão e perguntou: ‘Há alguma máquina de escrever por aqui que eu possa usar?’’[2]).
Eventos como a premonição de Asimov são uma força inexorável a favor da crença sobrenatural: humanos são facilmente confundidos, e se agarram facilmente a explicações sobrenaturais; experiências deste tipo são imensamente poderosas; e as implicações das crenças sobrenaturais podem ser muito, muito sedutoras. É muita coisa para resistir.
Como Asimov perguntou em uma [edição da revista] Skeptical Inquirer em 1986:
“Você gosta de ideia de morrer, ou de que alguém que você ame morra? Você pode culpar alguém por convencer-se de que há algo como uma vida eterna e que essa pessoa verá todos aqueles que ama em um estado de felicidade perpétua?
Você se sente confortável com as incertezas diárias da vida, sem nunca saber o que o próximo momento trará? Você pode culpar alguém por convencer-se de que pode alertar e se precaver contra estas incertezas ao ver o futuro através da configuração das posições planetárias, ou da disposição de cartas de baralho, o padrão de folhas de chá ou eventos em sonhos?” [3]
Isaac Asimov era um cético, um racionalista, um cientista por formação (sem mencionar “o maior educador de ciência de nosso tempo, e talvez de todos os tempos”, como foi saudado pelo editor da Skeptical InquirerKendrick Frazier [4]). Ainda assim, um engano trivial o levou muito perto da fronteira da crença sobrenatural – tão próximo que ele tomou uma atitude levado por esta crença. Apenas para estar seguro.
A história de Asimov não é incomum, mesmo entre céticos. Por exemplo, James Randi(outro dos fundadores do CSICOP) uma vez acordou e descobriu-se flutuando no teto, olhando para baixo e vendo seu corpo, dormindo em sua cama. Esta experiência deixou Randi não apenas impressionado, como convencido. Foi, ele disse, “uma experiência muito forte para mim. Eu realmente acreditei, pela evidência apresentada a mim, que havia tido uma experiência fora do corpo que se ajustava à descrição que ouvimos tantas vezes”. No entanto, depois lhe foi  mostrada evidência clara de que seu vôo astral não poderia ter ocorrido literalmente, mas deve ter sido ao invés um sonho ou alucinação. Durante sua experiência fora do corpo, Randi interagiu com sua gata Alice enquanto ela estava deitada sobre o lençol de cor chartreuse. Depois lhe foi mostrado que a gata estava trancada do lado de fora, e o lençol chartreuse estava na lavanderia – não em sua cama. [5] Sem o acaso de que elementos físicos não combinavam com sua experiência, “eu teria agora que dizer a vocês que, até onde sabia, havia tido uma experiência fora-do-corpo”. Mas e quanto àqueles que viveram um episódio assim sem o benefício da experiência investigativa de Randi – ou seu golpe de sorte [com a gata]? “Se não tiverem uma evidência convincente do contrário”, Randi refletiu, “o que os impedirá de dizer ‘Estou absolutamente seguro de que tive uma experiência extra-corpórea’? … Por favor, considere isto cuidadosamente, e não se esqueça, porque é um bom exemplo de que mesmo um arqui-cético poderia ter sucumbido”.
Muito de meu próprio trabalho enfatiza o mesmo ponto: é compreensível que tantas pessoas boas e inteligentes acreditem em coisas estranhas. De fato, é mais que compreensível; é comumente razoável. Para muitas pessoas em muitas situações, o paranormal é a melhor explicação que têm para os fatos à sua frente.
E quando esses fatos incluem experiências diretas e pessoais que parecem inexplicáveis… Bem, as palavras de Asimov se aplicam a mim também:
Corromperia os mais fortes, e não imagino que eu seja o mais forte”.
Nem de longe.
- – -

  1. Asimov, Isaac. I. Asimov. (Bantam: New York, 1994.) p. 14
  2. ibid. p. 337 – 338
  3. Asimov, Isaac. “The Perennial Fringe.” Skeptical Inquirer. Vol. 10. Spring, 1986. p. 212
  4. Frazier, Kendrick. “A Celebration of Isaac Asimov: A Man for the Universe.” Skeptical Inquirer. Vol. 17. Fall 1992. p. 30
  5. Randi, James. “A Report from the Paranormal Trenches.” Skeptic magazine. Vol. 1, No. 1. 1992. p. 25. Transcrito de uma palestra dada na Caltech em 12 de April de 1992.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O navio de Teseu e a impermanência do Carbono-14

O texto abaixo foi escrito por Kentaro Mori, do Ceticismo Aberto. O original (com as imagens que muito bem ilustram o texto) encontra-se em O navio de Teseu e a impermanência do Carbono-14. O texto é um pouco longo, mas é imperdível. A ciência explicada a la Sagan é fascinante. O universo, que aos poucos conhecemos, é tão belo e perfeito que duvido ter sido criado pelo deus mesquinho que costumamos imaginar.
“Nenhum homem pode atravessar o mesmo rio duas vezes, porque [já] nem o homem nem o rio são os mesmos.” – Heráclito
“O navio com que Teseu e os jovens de Atenas retornaram de Creta tinha trinta remos, e foi preservado pelos atenienses até o tempo de Demétrio de Falero, porque eles removiam as partes velhas que apodreciam e colocavam partes novas, de forma que o navio se tornou motivo de discussão entre os filósofos a respeito de coisas que crescem: alguns dizendo que o navio era o mesmo e outros dizendo que não era.” – Plutarco
O paradoxo do barco de Teseu é ao mesmo tempo uma das doutrinas essenciais do Budismo: a impermanência, a consciência de que tudo está em fluxo constante. A profundidade deste conceito pode ser apreciada tanto filosoficamente quanto vislumbrada cientificamente, compreendendo melhor a datação por radiocarbono, conhecida também como teste de Carbono-14. É uma longa jornada que vai literalmente de estrelas a muitos anos-luz até a ponta de seus pés, mas àqueles dispostos a dedicar algum tempo e esforço a viagem valerá a pena.

Ela começa por lembrar que toda forma de vida que conhecemos é orgânica, isto é, baseada no elemento carbono. Presente em diversas formas, desde seu estado puro na grafite de um lápis até em compostos complexos como o plástico do mouse que você segura, o carbono possui propriedades singulares que permitem que forme produtos de enorme variedade e complexidade – motivo pelo qual a química orgânica é um dos terrores na escola. Novamente, o tema pode ser complexo mas tem suas recompensas: é por esta complexidade que a própria vida, em todos seus meandros, pode florescer baseada neste elemento.

Cada um destes átomos singulares de carbono compondo cada uma de todas nossas células começou sua jornada na fornalha de estrelas. “Nós somos feitos da poeira de estrelas”, lembrava Carl Sagan, pois os átomos de carbono são criados a partir de elementos mais leves no núcleo de estrelas gigantes, a temperaturas superiores a 100 milhões de graus. As estrelas por sua vez também possuem seu ciclo de vida, e quando ele chega ao seu fim, lançam em enormes explosões os muitos elementos que criaram, e que poderão se reunir novamente em outros sistemas estelares, talvez com seus sistemas planetários. Como o nosso sistema solar.

Nesta história cósmica da gênese do elemento em que toda a vida conhecida se baseia, o detalhe fabuloso é que cada um dos átomos de carbono em seu corpo pode ter sido formado no núcleo de uma estrela diferente. Veja duas estrelas no céu, separadas por anos-luz de distância, e imagine como há bilhões de anos, os minúsculos átomos que formam o seu próprio corpo estavam tão ou mais distantes. Somos poeira de estrelas, de muitas estrelas, separadas por vastas distâncias, reunidas aqui. Recupere o fôlego, porque a atmosfera é justamente o próximo passo de nossa jornada.

Ao encontrarem-se no sistema solar, e em particular, no planeta Terra, o caminho dos átomos de carbono continua. Tais átomos passam a fazer parte do ciclo do carbono no planeta, em constante transformação, deslocando-se da atmosfera aos oceanos, e vice-versa. Eles também podem mergulhar em períodos de menor fluxo, como depósitos fósseis, ou descendo às profundezas do planeta, de onde podem ser liberados novamente à atmosfera em grandes erupções. E há, claro, um outro reservatório de troca, e um especialmente relevante a nós: a biosfera, todas as formas de vida de que falamos. Os átomos de carbono que fazem parte de você.

O fluxo do carbono relacionado à vida deve ser familiar. As plantas fixam o elemento da atmosfera através da fotossíntese. O físico Richard Feynman notou como, de certa forma, as árvores e plantas se formam do ar. De fato, o que faz uma pequena semente se transformar em um enorme Jatobá é em sua maior parte o carbono que o vegetal tomou do ar para constituir seu tronco, raízes e folhas. Folhas estas que podem finalmente chegar aos animais que se alimentarem delas, e então aos animais que se alimentarem destes animais, incluindo os seres humanos. Pelo que o carbono que foi criado em estrelas e fixado do ar em matéria orgânica chega também a você.

Como animais, estamos constantemente ingerindo compostos orgânicos, e constantemente excretando compostos orgânicos, integrados como uma pequena parte deste enorme e longo fluxo. À semelhança do barco de Teseu, praticamente todo o material compondo seu corpo hoje terá sido substituído em alguns anos. E ao retornarmos ao barco de Teseu, finalmente temos a oportunidade de abordar a impermanência do Carbono-14. Esta é a parte mais complicada da história, mas a que permite uma apreciação da beleza de todo este conhecimento em relação ao rio da vida.

Em um Universo onde tudo está em constante fluxo, o próprio carbono está presente em diferentes variedades atômicas, chamadas isótopos – possuindo o mesmo número atômico, mas com diferentes massas, dependendo do número de nêutrons. Quase todo o carbono na Terra possui seis prótons e seis nêutrons em seu núcleo, o carbono-12, mas uma parcela infinitesimal de um entre um trilhão de átomos de carbono possui oito nêutrons, formando assim o carbono-14 (C-14). Por que tão infinitesimalmente raro?

Porque o isótopo C-14 é instável, é radioativo, transformando-se em nitrogênionitrogênio. Nenhum átomo de C-14 que você encontrar terá muito mais de 60.000 anos, e é muito provável que seja muito mais novo. Entre os trilhões de átomos de carbono que você poderá encontrar, esse átomo radioativo em particular deve ter tomado um caminho diferente.

É nas camadas mais altas da atmosfera, banhadas diretamente por intensos raios cósmicos, que o nitrogênio-14 pode ser atingido por nêutrons e formar o C-14, a provável origem do átomo radioativo e impermanente. Esta formação se dá constantemente; enquanto o C-14 decai e volta a se transformar em nitrogênio, nitrogênio na alta atmosfera sob a ação de raios cósmicos por sua vez se torna C-14. O resultado é que a proporção na atmosfera deste elemento de vida relativamente curta é aproximadamente constante, enquanto parte decai, outra parte se forma.

O C-14 formado por raios cósmicos nos limites entre a Terra e o espaço se distribui pela atmosfera, e como tal, faz parte do ciclo do carbono, incluindo o fluxo que passa pela biosfera, que como vimos, começa com a fixação do carbono pelas plantas. Desta forma, a concentração de C-14 fixado em um tronco de madeira, ou nas raízes, folhas e frutas de uma árvore em crescimento é aproximadamente a mesma daquela presente na atmosfera.

Porém, no instante em que uma planta morre, ela deixa este ciclo de troca com a atmosfera. O C-14 que fixou continua a decair, mas não é mais reposto por novos isótopos da atmosfera. Sua concentração só diminui, e diminui a uma taxa de decaimento radioativo constante e devidamente conhecida pela ciência: reduz-se à metade em aproximadamente 5.730 anos, a meia-vida do C-14. Chegamos por fim à datação por radiocarbono, o teste de carbono-14.

Em 1949, Willard Libby, por sugestão de Enrico Fermi, desenvolveu a ideia de aproveitar esta diminuição constante da proporção de C-14 em matéria orgânica para estimar quando ela deixou de fazer parte da troca constante com a atmosfera. Bastaria comparar sua porção de C-14 com aquela presente na atmosfera. Se a proporção houvesse diminuído pela metade, por exemplo, isso significaria que o C-14 esteve decaindo pelo seu período de meia-vida, por aproximadamente 5.730 anos. Outras proporções permitiriam estimativas indo de algumas décadas até dezenas de milhares de anos atrás. Por seu trabalho, Libby recebeu o prêmio Nobel, e o teste de radiocarbono é amplamente conhecido por revolucionar a arqueologia, definindo um relógio para conhecer tanto da história da vida.

Com enorme precisão, a datação por carbono-14 também pode ser aplicada a nós. Não fixamos carbono diretamente da atmosfera, mas nos alimentamos de plantas que acabaram de fazê-lo ou de animais que acabaram de se alimentar destas plantas, renovando em um fluxo contínuo o carbono em nossos corpos. Enquanto nos alimentamos, enquanto estamos vivos, participando deste fluxo, a concentração de C-14 em nossas células é aproximadamente a mesma daquela encontrada na atmosfera. Enquanto você está vivo, radioisótopos formados na alta atmosfera por raios cósmicos, a partir da poeira de estrelas cruzando vastas distâncias, passam por seu corpo, de fato constituem o seu corpo depois de serem fixados em compostos orgânicos pelas plantas.

Mas nada disso é permanente, são apenas fluxos mais ou menos rápidos que outros. No momento de sua morte o C-14 deixará de ser reposto, diminuindo então a uma taxa constante, pela qual o momento em que você se afastou do rio da vida poderá ser reconstruído. Cientificamente. Este, claro, é apenas um dos fluxos dos quais você se afastou: o carbono-12, estável, que constitui quase todo seu corpo continuará fazendo parte da biosfera por ainda muito tempo, incluindo alguns compostos especialmente relevantes relacionados com seu código genético, se você tiver deixado descendentes. Estes compostos podem ter seu material reposto, mas a informação que carregam… seria tema para outra longa história, em outro longo fluxo.

O carbono-14 é um marcador da impermanência, decaindo e formando-se constantemente. E como parte da química da vida, nos lembra que o paradoxo do barco de Teseu, seja como for solucionado filosoficamente, é o paradoxo que observamos cientificamente em todo o Universo, e do qual somos mesmo parte. A profundidade da impermanência só se torna mais bela e relevante quando compreendida também através dos olhos da ciência.